O Brasil está envelhecendo — e não está preparado para isso. A partir de 2030, a pirâmide demográfica do país se inverte: seremos, oficialmente, uma nação de idosos. Mas onde estão as políticas públicas para essa transformação? Onde está o planejamento? Nayara Almeida veio ao Podcast Amar Residencial para encarar essas perguntas com a lucidez de quem entende de economia e vive a realidade do cuidado.
Economista com mais de 20 anos de experiência no ecossistema de saúde brasileiro, Nayara transita entre operadoras, grupos de diagnóstico, farmácias especializadas e health techs. É autora do Substack Economia da Saúde e, hoje, também é gestora de ILPI — o que lhe dá uma perspectiva rara, unindo a visão macroeconômica do sistema com a experiência prática de quem cuida de idosos no dia a dia.
A conversa enfrenta de frente uma pergunta incômoda: por que o poder público se afastou da pauta do envelhecimento? Enquanto o país caminha aceleradamente para se tornar uma nação idosa, as políticas públicas não acompanham. O cuidador de idosos, peça fundamental desse sistema, ainda não tem profissão regulamentada. E as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) seguem cercadas de preconceito, quando deveriam ser parte central da solução.
Nayara também aborda temas sociais profundos e pouco discutidos. A solidão na velhice, que adoece e mata silenciosamente. A feminização do envelhecimento — as mulheres vivem mais e, com frequência, envelhecem sozinhas e mais vulneráveis economicamente. E o burnout das famílias cuidadoras, que se esgotam física e emocionalmente tentando dar conta de um cuidado que deveria ser compartilhado com o Estado e com profissionais.
Um dos pontos mais reveladores da conversa é a desconexão entre saúde e assistência social no Brasil. São dois sistemas que deveriam trabalhar juntos no cuidado com o idoso, mas que operam de forma fragmentada, deixando famílias perdidas no meio do caminho, sem saber a quem recorrer.
Mas nem tudo é diagnóstico de problemas. Nayara aponta caminhos — e um dos mais importantes é o planejamento financeiro e familiar. Quando a longevidade é planejada, ela pode deixar de ser uma fonte de sofrimento e medo para se tornar algo desejado, uma fase da vida vivida com dignidade, autonomia e qualidade. A diferença entre envelhecer com angústia ou com tranquilidade muitas vezes está na preparação que se faz — ou se deixa de fazer — hoje.
Para famílias, gestores, profissionais de saúde e qualquer pessoa que se preocupe com o futuro do país, este episódio é uma aula sobre o maior desafio social e econômico das próximas décadas.